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20.nov
The Wrap entrevista Angelina Jolie e Loung Ung

A cineasta Angelina Jolie e sua amiga de longa data, Loung Ung, juntamente com o cineasta cambojano, Rithy Panh, foram entrevistados pela revista norte americana “The Wrap”. A conversa dos três foi recentemente publicada na edição de Novembro da revista, que trouxe ainda um novo ensaio fotográfico (photoshoot) feito pelo fotógrafo Yu Tsai. Confira abaixo a matéria traduzida na íntegra pelo Angelina Jolie Brasil.

Por Steve Pond

Angelina Jolie não é a única diretora, na corrida para ganhar o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira, que não nasceu no país que seu filme representa, mas certamente é a mais famosa. Sendo uma norte americana cuja cidadania cambojana foi concedida uma década atrás, por conta do seu trabalho humanitário, Jolie retornou ao país para gravar “First They Killed My Father”, um filme lindo mas brutal que conta a história de Loung Ung, que tinha cinco anos de idade quando sua família foi expulsa da cidade de Phnom Penh em 1975.

Guiada para campos de trabalho forçados no interior do país pelo assassino regime do Khmer Vermelho, comandado por Pol Pot, Ung sobreviveu a um terrível tratamento nos seus quatro anos seguintes, enquanto observava seus pais e amigos se tornarem vítimas de um genocídio ostensivamente destinado a criar uma sociedade sem influência ocidental.

Ung sobreviveu e escreveu suas memórias, que tem como subtítulo “Lembra Uma Filha do Camboja” e que foi lançado no ano 2000. Jolie convidou Ung para co-escrever o roteiro e, então, trouxe Rithy Panh – diretor cambojano do extraordinário filme indicado ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira, “A Imagem que Falta” – para produzir o longa.

Gravado no Camboja com atores cambojanos, o filme foi exibido nos Festivais de Cinema de Telluride e Toronto antes de ficar disponível na Netflix. Jolie, Ung e Panh conversaram com a revista “The Wrap” quando se encontravam em Toronto sobre “First They Killed My Father” e sobre sua ressonância no mundo atual.

O que levou você a querer contar essa história?

ANGELINA JOLIE: O Camboja é um país que mudou minha miga quando viajei para lá 16 anos atrás. Na época eu me dei conta do quão pouco sabia sobre o mundo. Isso me deixou mais humilde e mais comprometida. Eu encontrei uma cópia do livro de Loung e eu amei o fato dela escrever suas memórias através dos olhos de uma criança. Esta foi uma forma de se conectar com o público e esta foi a forma que nós fizemos o filme. Agora, eu tenho um filho de 16 anos que é Cambojano e eu quis fazer esse filme ao dele e para ele. Mas, acima de tudo, para o Camboja porque eu acho que esta é realmente a hora de falar sobre isso. Eu queria fazer um filme não apenas sobre um país, mas junto com o país.

Loung, está é, basicamente, sua experiência quando criança e a experiência de sua família. Foi doloroso reviver essas experiências?

LOUNG UNG: Foi doloroso. Entretanto, eu senti que não eram apenas as minhas memórias que eu queria contar, era a história dos meus irmãos, dos meus pais e de muitos outros cambojanos que passaram por experiências similares entre os anos de 1975 e 1979. No período de 4 anos – ou 3 anos, 8 meses e 20 dias – do genocídio khmer, cerca de 2 milhões de cambojanos morreram. Eu queria homenagear suas vidas, espíritos, resiliência e humanidade. E também, eu queria que os descendentes dos meus pais, seus netos e bisnetos, que nunca tiveram a chance de conhecê-los, tivessem a oportunidade de saber que guerreiros, sobreviventes e pais amorosos eles foram. Isso foi importante para mim.

Você algum dia imaginou que isso se tornaria um filme?

LOUNG UNG: Foi um sonho. E eu sempre pensei que se isso acontecesse um dia, tinha que ser com a equipe certa, com as pessoas certas, que tivessem grande integridade, decência e bondade. E este, absolutamente, foi o time dos sonhos. Angie e Rithy e suas famílias, somos muito próximos. Isso está muito além do que eu imaginei. Mas, você sabe, quando você sonha, sonha grande mesmo, às vezes as coisas acontecem.

Rithy, você fez um filme muito pessoal sobre o genocídio cambojano alguns anos atrás, “A Imagem que Falta”. O que fez você acreditar que uma cineasta, que não passou por essas experiências, pudesse realmente fazer justiça?

RITHY PANH: Angelina veio me visitar quando ela foi ao Camboja e eu já a conhecia pelos filmes que tinha feito, sabe? Mas o que é mais importante, é que ela fez este filme junto com a gente. Nós não queremos ser vistos apenas como sobreviventes. Nós precisávamos de um ser humano com imaginação para fazer este filme. Nós precisávamos voltar para nossas imaginações. O genocídio não é apenas uma matança, ele também destrói sua identidade, sua imaginação. E você precisa aprender isso de novo, até que você seja capaz de imaginar, de fazer poesias. Alguém escreveu, um tempo atrás, que depois de Auschwitz, a poesia não era mais possível. Eu acho que depois de Auschwitz, nós precisamos de mais poesia, que nós precisamos de mais cinema, que nós precisamos de mais livros para conseguir explicar às pessoas o que é isso tudo. O que aconteceu conosco pode acontecer com você, já que a história se repete o tempo todo e nós precisamos deste tipo de filme para explicar à próxima geração, qual o valor do ser humano.

Este é um filme lindamente gravado, mas o que acontece nas telas é horrível. Angelina, foi complicado descobrir até que ponto o público iria aguentar e quanto você deveria mostrar?

ANGELINA JOLIE: Sim, mas eu realmente nunca pensei no público. Eu pensei mais em ser fiel à história, ser fiel à experiência. Porque o filme foi gravado a partir do ponto de vista da pequena Loung, portanto, o interessante é que você consegue aguentar o que ela consegue aguentar, quando ela consegue aguentar. Assim, quando ela é mais nova, ela constantemente olha para longe das coisas que ela não consegue lidar. E, de certa forma, a visão dela amadurece e cresce. Eu acho que no final, o público está mais preparado, assim como ela está, para realmente olhar as coisas e enfrentá-las. Portanto, isso foi bastante útil. Eu não gosto de palavrões, violência e sangue. E por não gostar disso, eu apenas mostro quando é realmente necessário. Eu acho que essas coisas podem ser mais eficazes se você as usa com cuidado, se você as usa de uma forma real e apenas quando é necessário. E elas foram certamente necessárias quando eu as usei.

Loung, como foi assistir este filme e ver suas próprias experiências de vida nas telonas?

LOUNG UNG: Foi uma experiência linda. Assim como muitas outras jornadas, existiram solavancos. Para mim, particularmente, existiram momentos tristes, momentos felizes e momentos de redenção e cura. E a coisa mais importante ao assistir este filme, foi ter a sensação de que eu não estou sozinha. Passar pela guerra quando eu era jovem, mesmo quando eu ainda estava ao lado dos meus pais e, posteriormente, quando eles foram levados e quando nós passamos a viver em vilarejos comunais com outras pessoas, você sempre está sozinho. É perigoso ficar junto com outras pessoas. É perigoso se emocionar, se apaixonar, ser um indivíduo, ser visto, ser ouvido. Você se encontra, realmente, se curvando para dentro e tentando desaparecer. Para sobreviver, eu tive que me tornar surda, muda, cega, burra e invisível. Mas agora, eu estava fazendo um filme ao lado dos meus amigos e da minha família. Eu estava sendo vista, eu estava sendo ouvida e nós pudermos estar juntos. Para mim, esta foi a experiência mais emocionalmente profunda, pois eu não estava sozinha e nunca mais tive que ficar sozinha novamente.

Rithy, você mencionou que a história se repete. Por que é tão importante contar uma história como essa para o mundo de hoje?

RITHY PANH: Quando você vê o que aconteceu em Charlottesville, você se pergunta, “Nós fizemos tudo o que podíamos? O que é possível hoje?” Como um artista, você também é um cidadão e você tem a obrigação de trabalhar para abrir a mente das pessoas. Você pensa, “Eu não posso lhe dar uma resposta certa, mas talvez eu posso ajudar você a fazer a escolha correta”. Você tem a escolha de viver junto com outras pessoas ou de viver sozinho. O fracasso da democracia pode machucar muito as pessoas ao redor do mundo.

ANGELINA JOLIE: Eu concordo com ele. O fracasso da democracia – ou uma democracia fraca, ou quando uma democracia forte não está liderando ou quando não tem uma voz tão forte – isso enfraquece outras democracias ou democracias potenciais ao redor do mundo. Eu cresci pensando que se nós conhecêssemos a Bósnia teríamos feito alguma coisa. Se nós conhecêssemos Auschwitz, se nós conhecêssemos o Camboja… Nós sabemos de muitas coisas hoje. Nós vimos o que aconteceu, nós vimos os vídeos. Assim como Rithy disse, nós vimos muito ódio e muitas pessoas usando discursos de ódio que constroem esta terrível ideologia que acaba dividindo as pessoas. Nós sabemos onde isso vai dar. Isso é muito sério. Este é o equilibro do nosso mundo – é pelo o que as pessoas vivem, é a natureza humana, é como nós respeitamos os direitos humanos uns dos outros. É por isso que nós encorajamos a democracia e a tolerância, porque esta é a diferença entre as pessoas que estão vivas e morrendo, das pessoas que são assassinadas, das massas que estão sendo apagadas. E nós estamos vendo isso atualmente. Nós vemos isso ao redor do mundo. Nós temos mais pessoas deslocadas do que nunca, nós temos guerras acontecendo, nós temos cada vez mais injustiças. E nós, realmente, temos que nos levantar firmemente e prestar atenção.

Fotos:

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17.nov
LA Times entrevista Angelina Jolie e Loung Ung

Angelina Jolie e Loung Ung estão sentadas em uma sala de conferências nos confins dos novos e brilhantes escritórios da Netflix em Hollywood. Parece como qualquer outro dia e, de vários modos, para essas duas amigas de longa data, essa entrevista é exatamente isso, mais uma oportunidade de garantir que o mundo não se esqueça dos horrores que aconteceram no Camboja durante o regime do Khmer Vermelho. Esta é uma missão que não terminará para nenhuma das duas tão cedo.

Essas duas mulheres não apenas se conhecem há mais de uma década, mas as duas estão unidas por esta colaboração, este épico filme chamado “First They Killed My Father”. O longa, lançado pela Netflix em Setembro deste ano, foi adaptado do livro escrito por Ung , lançado no ano 2000, que conta as experiências de sua família. O célebre trabalho narra a infância de Ung sob o regime do Khmer Vermelho durante a década de 70. Jolie dirigiu o projeto, que foi enviado oficialmente pelo Camboja para concorrer ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeria, e co-escreveu o roteiro ao lado de Ung.


Angelina Jolie e a pequena atriz cambojana Sareum Srey Moch.

Até dirigir o filme dramático que se passa durante a Guerra da Bósnia lançado em 2011, “Na Terra de Amor e Ódio”, Jolie admite sem rodeios que nunca se viu como uma diretora. Depois deste filme, entretanto, ela começou a se perguntar que tipo de histórias deveria contar em seguida. Foi quando ela se lembrou da história de sua amiga Ung e percebeu que esta era uma história que seu filho Maddox, adotado por ela no Camboja, precisava vivenciar.

“Não pensei algo como ‘será que seria um filme legal?’. Foi mais para ‘no eu deveria passar anos da minha vida fazendo? O que importa? O que conseguiu me afetar?’ E então, ficou muito claro para mim que tinha sido esse livro,” disse Jolie. “E enquanto Maddox crescia, eu realmente precisava que ele compreendesse o que tinha acontecido e eu sentia que o país nunca tinha realmente lidado com isso. Este não era um tema aberto e discutido como deveria ser”.

Quando mais Jolie e Ung conversam, mais fácil fica de entender a amizade entre as duas. O par primeiramente se conheceu quando Jolie se encontrava em uma missão humanitária na região rural do Camboja. Anos depois, Jolie pergundou a Ung se ela tinha interesse em fazer uma versão cinematográfica de seu livro e se ela queria escrever o roteiro ao seu lado. De acordo com Ung, o roteiro foi escrito em um período de três dias na casa de Jolie.

Um momento do livro que Jolie se lembra e que insistiu incluir no filme foi a cena em que a mãe de Ung esconde uma camisa azul, para que seus filhos nunca se esquecessem dela ou da vida que família tinha antes que o Khmer Vermelho comandasse o país. E, de fato, esta camisa ainda existe até os dias de hoje em um cofre à prova de fogo que se encontra na casa do irmão de Ung em Vermont.


Uma cena do filme “First They Killed My Father: A Daughter of Cambodia Remembers”.

“As crianças ouviram essa história e um dia a surpreenderam dando a ela, como presente, uma camisa de seda azul”, lembra de Jolie enquanto fala sobre seus próprios filhos. “Eles dão presentes de aniversário aleatórios para ela, porque ela não sabe a data do seu aniversário”.

Ung explicou aos filhos de Jolie que ela não sabe a data de seu nascimento porque os registros foram destruídos, mas que seu irmão registrou como dia 17 de Abril.

“Neste dia, o Khmer Vermelho tomou o poder no país,” esclarece Ung. “Eu nunca achei que estava correto. Quando você tem 16 anos, você quer fazer uma festa de aniversário para comemorar, mas você sabe que neste mesmo dia, pessoas ao redor do mundo estão ascendendo velas para lembrar de 2 milhões de vidas perdidas. Como eu, realmente, poderia querer um bolo de aniversário nesta data?”

Jolie acrescenta, “Todo ano, nós criamos datas de aniversário diferentes para ela. Nós estavámos falando sobre isso ontem, tentando decidir quando seria sue próximo aniversário”.

Um dos aspectos mais marcantes do roteiro escrito por Jolie e Ung é sobre a pouca exposição que existe nele. Quase toda a história é mostrada através dos olhos da pequena Loung, interpretada pela pequena atriz Sareum Srey Moch.

“A coisa mais complicada a respeito disso é que você não pode saber muito mais do que ela sabe, já que ela é uma criança,” diz Jolie. “Você apenas pode saber a respeito dos seus pensamentos internos. O livro possibilita que as coisas sejam explicadas, já que nele você pode escrever o que estava acontecendo ou quais eram os pensamentos naquele momento. Mas no filme, não podíamos mostrar isso. Nós decidimos não colocarmos vozes para explicar os pensamentos dela. No filme, temos apenas que nos identificar com ela, mesmo que exista uma cena inteira em que ela não entende o que está acontecendo, a audiência acaba ficando confusa, assim como ela está”.

A jornada encontra a representação no filme de Loung atravessando florestas e plantações de arroz onde milhões de cambojanos urbanos foram enviados para trabalhar, enquanto o regime autoritário tentava voltar no tempo e remover toda a influência ocidental da nação.

“Em outras guerras, existiram campos de prisioneiros e muros. No Camboja, o país todo se transformou em uma prisão”, disse Jolie. “Não existiam muros. Não havia nenhum lugar para ir e se sentir seguro. O país todo se tornou prisioneiro”.

O sofrimento causado durante a era do Khmer Vermelho ainda traz lembranças dolorosas para muitas pessoas, mas quando Jolie teve que filmar as cenas em que as famílias foram ordenadas a deixar a capital Phnom Penh, ela ficou surpresa com o que os sobreviventes queriam ensinar aos filhos.

“Mesmo com as cenas do êxodo, os figurantes, que levaram suas famílias tambem, levaram seus próprios filhos. Eu conversei com alguns figurantes que lembravam da primeira vez que deixaram a cidade. Agora, eles estavam trazendo os filhos e os netos para mostrar a eles como tinha sido. Foi uma coisa realmente emocionante”.


Sareum Srey Moch durante uma cena do filme “”First They Killed My Father”.

Fonte: Los Angeles Times

Na Galeria de fotos, adicionamos 15 imagens feitas e compartilhadas pelo renomado fotógrafo, Roland Neveu, durante as gravações do filme no Camboja em 2015.

Fotos:

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12.out
Da Namíbia, Angelina Jolie escreve uma carta para você

Conforme a Harper’s Bazaar comemora seu 150º aniversário, Jolie compartilha seus pensamentos sobre os direitos das mulheres e sobre as nossas responsabilidades em relação ao meio ambiente.

A atriz e cineasta Angelina Jolie é conhecida por usar sua voz para defender as causas dos direitos humanos ao redor do mundo. Seu projeto mais recente, “The Breadwinner”, conta a história de uma garota afegã de 11 anos chamada Parvana que passa a se vestir de menino para conseguir sustentar sua família, que é controlada pelo Talibã no Afeganistão, onde as mulheres não podiam trabalhar ou frequentar a escola. Ao celebrar o 150º aniversário da Harper’s Bazaar, Jolie compartilha seus pensamentos sobre os direitos das mulheres e sobre a nossa responsabilidade uns com os outros e com o nosso meio ambiente.

Por Angelina Jolie

Quando fui convidada a escrever para esta edição especial de aniversário da Bazaar, eu imaginei uma leitora da revista, 150 anos atrás, em 1867. Se ela pudesse nos ver hoje – nós, mulheres atuais – o que ela pensaria?

A Bazaar foi primeiramente publicada na América dois anos após o fim da Guerra Civil e a abolição da escravatura. Era um mundo sem carros, sem antibióticos modernos ou energia elétrica. A maioria das pessoas não passavam dos 50 anos e ainda era comum as mulheres falecerem ao darem a luz.

Para uma mulher, muito comumente em países ocidentais no século 19, você não poderia ir para a universidade e ter profissões especializadas como medicina, ciência e direito, já que não eram abertas. Você não podia votar e ainda ficaria sem ganhar esse direito, em muitos países, por quase metade de um século.

Então eu imagino que se uma leitora da Bazaar pudesse nos ver agora, ela ficaria perplexa. E já que ela provavelmente defendeu os direitos das mulheres em toda sua vida, imagino que ela ficaria grata.

Mas também me pergunto o que essa mulher do século 19 pensaria sobre a desigualdade que ainda existe para milhares de mulheres e meninas ao redor do globo – como as que têm que ir trabalhar ao invés de estudar para ajudar suas famílias, como Parvana em “The Breadwinner”. Ou as mulheres que ainda morrem jovens por possuírem tão pouco ou nenhum acesso aos sistemas de saúde. Pensaria ela que fez tudo que pode por elas?

A mulher mais bonita e mais resiliente que eu já conheci foi uma refugiada afegã em um campo abandonado na fronteira com o Paquistão. Ela estava grávida e seu marido havia viajado para procurar um trabalho para ajudá-la. Haviam tratores espalhando lama o redor dela e ela esperava por ele, pois não havia outra maneira de se encontrarem. Ela não tinha nem um teto e não havia nenhum hospital por perto. Ela me convidou para entrar e me ofereceu um chá.

Ela perguntou sobre a minha família e sobre meu país. Quando eu ofereci ajuda, de qualquer forma que fosse, ela disse que não podia pedir por mais do que uma visita e uma conversa. Ela era generosa e digna, com os olhos brilhantes. Às vezes quando eu tenho um dia difícil, eu lembro de seu sorriso e do jeito que ela segurava seu próprio corpo, como se ela fosse dar toda a sua restante força para seu bebê. Duas semanas depois que nós nos conhecemos, aconteceu o 11 de Setembro. Com tudo que aconteceu no Afeganistão, eu não imagino se ela conseguiu sobreviver. Seu marido conseguiu voltar antes que destruíssem seu acampamento? Ela deu o parto lá, ou foi forçada a sair? Estará ela, agora, em uma tenda em alguma fronteira com sua criança, que agora deve ser adolescente?

Eu recentemente li que o Fórum Econômico Mundial previu que levará 83 anos para que as lacunas nos direitos e oportunidades entre homens e mulheres, possam acabar. Isso não se trata de progresso para mulheres à custa dos homens, mas sim de encontrar um equilíbrio igual que beneficie todos. Oitenta e três anos parece mais tempo do que qualquer pessoa, homem ou mulher, esperaria ou imaginaria.

Minha mãe, que era mestiça de índios iroqueses pelo lado de seu pai, me ensinou que os iroqueses diziam que devemos considerar o impacto de nossas decisões para até as sete gerações posteriores. É difícil para nós sermos pensativos assim, com toda a pressão em nossas vidas, mas parece, para mim, ser uma bela aspiração.

Então seja lá quem você for e que estiver lendo isso – uma médica, advogada, cientista, ativista dos direitos humanos, estudante, professora, mãe, esposa, ou um menino ou uma menina folheando a revista da sua mãe – eu espero que você se junte à mim ao dedicarmos um momento, hoje, para pensar em como podemos contribuir para um futuro melhor. Existem muitas coisas que não podemos prever sobre o mundo daqui 150 anos. Mas o que nós sabemos é que nossos bisnetos estarão vivendo com as consequências das decisões que fazemos agora, assim como podemos traçar a origem dos problemas que estamos enfrentando hoje, nas raízes dos séculos anteriores.

Foi no início do século 19, por exemplo, que a onda de marfim e a venda outros produtos feitos de animais selvagens alavancavam em alguns países, juntamente com a destruição do meio ambiente. Onde milhões de elefantes, leões e outras espécies viviam no continente africano, hoje, pequenas e dispersas populações se apegam à caça e à expansão das terras agrícolas, reduzindo seu habitat natural.

As fotos e este artigo foram feitos na reserva natural da Namíbia, no deserto Namib. A reserva é preservada pela Fundação N/a’an ku sê, comandada pelos meus amigos Marlice e Rudie van Vuuren. Nossa filha Shiloh nasceu na Namíbia, e nossa família tem trabalhado ao lado de Rudie e Marlice na área da conservação deste país ao longo da última década. Para mim, a Namíbia representa não apenas laços familiares e de amizade, mas também o esforço de se encontrar um equilíbrio entre os humanos e o meio ambiente, algo que é tão crucial para o nosso futuro.

A fundação N/a’an ku trabalha com a população da Namibia’s San, considerada a cultura mais antiga do mundo. Eles representam centenas de anos da vida humana e selvagem coexistindo em harmonia, mas eles sofreram, assim como outros povos indígenas, ao serem forçados a deixar suas terras em razão do cultivo, do desenvolvimento não controlado e do esgotamento da vida selvagem. A destruição do habitat natural e da vida selvagem deste local deixou o povo de San incapaz de caçar e de sustentar suas famílias.

A mesma coisa está acontecendo ao redor do mundo – na África, na América Latina, Asia e no Pacífico – e as mulheres normalmente são as mais afetadas. As mulheres constituem a maioria dos pobres no mundo. Frequentemente recai a elas a responsabilidade de encontrar comida, água e óleo para cozinhar para suas famílias. Quando o meio ambiente está danificado – por exemplo, quando os estoques de pesca estão destruídos, a vida selvagem é morta por caçadores furtivos ou quando as florestas tropicais são desmatadas – isso agrava ainda mais a situação de pobreza. A educação e a saúde das mulheres são as primeiras coisas atingidas. O ambiente também é um fator crucial na futura estabilidade global. A cada ano, 21.5 milhões de pessoas se deslocam em todo o mundo em virtude das mudanças climáticas, de um total de 65 milhões de pessoas que se encontram atualmente desabrigadas.

A Fundação N/a’an ku trabalha para preservar o habitat natural e para proteger as especies ameaçadas de extinção, como elefantes, rinocerontes e guepardos, como os retratados nas fotos deste artigo. Eu os conheci pela primeira vez em 2015, quando ainda eram pequenos filhotes e que foram “adotados” pela nossa família. Eles ficaram órfãos e quase morreram. Eles foram alimentados e recuperaram a saúde, porém, não podem ser devolvidos à vida selvagem pois perderam o medo de seres humanos e podem ser mortos por eles caso se afastem da reserva. Como só existem em torno de 7.100 guepardos em todo mundo, a missão é salvar todo animal possível.

Esses guepardos não são animais de estimação e nenhum animal selvagem deve ser mantido como um. Eles nos inspiram a querer preservar estas únicas e majestosas criaturas na natureza, como um dos vários passos que devemos dar para preservar o meio ambiente para as futuras gerações.

Cada um de nós tem o poder de fazer um impacto através das nossas escolhas diárias. Por exemplo, podemos nos comprometer em nunca comprar produtos ilegais da vida selvagem, como marfim ou chifres de rinoceronte.

A moda já foi um fator importante na hora de incentivar a compra de roupas, jóias e acessórios feitos com partes de animais selvagens. Mas as revistas, agora, podem enviar uma mensagem diferente: que os animais pertencem à natureza e que o marfim não é algo belo, a não ser que esteja na presa de um animal vivo.

O que fazemos, em nossas pequenas maneiras, é importante. O pensamento esperançoso é este que se encontra em nossas mãos. Ao longo dos próximos 150 anos, a tecnologia nos dará mais e cada vez melhores meios de se comunicar, de combater a pobreza, de defender os direitos humanos e de cuidar do meio ambiente. Mas é aquilo o que escolhemos fazer com a liberdade que possuímos, que faz toda a diferença. Se a minha experiencia de vida me ensinou uma coisa é que, o que você defende e o que você escolhe ir contra, é o que define você. Como as pessoas de San dizem: “Você nunca está perdido se você consegue ver seu caminho para o horizonte”.

DIREITOS DAS MULHERES

O Direito Internacional exige mulheres e meninas sejam iguais aos homens e aos meninos. Isso significa igualdade total em:

• O direito de participar na política internacional, nacional e local e na sociedade.
• O direito à educação, ao trabalho e ao acesso à economia.
• O direito à saúde, incluindo a saúde sexual e reprodutiva.
• O direito à vida e de não ser vítima de violência, especialmente de violência doméstica.
• O direito à igualdade em suas relações familiares, em suas comunidades e religiões

O dever legal de garantir igualdade de gênero é obrigatório para todos os países do mundo.

Fonte: London School Of Economics Center for Women Peace and Security

INFORMAÇÕES SOBRE OS GUEPARDOS

• A população atual de guepardos é inferior a 7.100
• Os guepardos estão desaparecendo das áreas, que diminuiu em 89% nos últimos 100 anos.
• Os guepardos são capturados e vendidos ilegalmente para o comércio de animais de estimação e também são caçados em virtude de suas peles.
• O destino principal dos guepardos vivos, no comércio ilegal de animais selvagens, é o Estado do Golfo.
• Estima-se que dois terços dos filhotes de guepardos traficados morrem em virtude do comércio ilegal.

Fonte: Harper’s Bazaar

Fotos:

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29.set
Angie e Loung respondem questões de fãs para a Netflix

O canal oficial da Netflix no YouTube compartilhou nesta quinta-feira, dia 28 de Setembro de 2017, um vídeo exclusivo com Angelina Jolie e Loung Ung. Nele, as duas respondem algumas perguntas feitas por fãs cambojanos a respeito do filme “First They Killed My Father”.

O filme, que foi lançado no dia 15 de Setembro pela provedora, foi dirigido por Angelina e é baseado no livro de mesmo nome escrito por Loung, que narra sua história de sobrevivência durante o genocídio no Camboja.

Em 1975, Loung tinha 5 anos de idade quando o Khmer Vermelho assumiu o poder e deu início a 4 anos de terror e genocídio que sacrificaram a vida de dois milhões de cambojanos. Retirada da casa de sua família em Phnom Penh, ela foi treinada como soldado mirim em um campo para órfãos, enquanto seus irmãos foram enviados a campos de trabalhos forçados.

A seguir, confira as perguntas enviadas pelos fãs cambojanos e respondida por ambas durante o vídeo.

Durante a evacuação da cidade, Loung sonha com um macaco dançando. O que isso significa?

LOUNG: Eu gostei dessa pergunta. A dança do macaco Hanuman na cultura Khmer é algo muito espiritual. Para esta cultura, o deuses macacos podem descer e salvar as pessoas. Aquela cena mostra você desejando que um deus pudesse descer e salvar você daquele inferno que estava acontecendo em seu mundo naquele momento.

ANGELINA: A cena também ajuda a mostrar onde a mente de uma criança vai para escapar do horror.

LOUNG: Angelina fez algo muito bonito com esta cena, que eu absolutamente amei. É uma das minhas cenas favoritas do filme, inclusive. De verdade mesmo.

Quais foram os momentos mais tristes e mais felizes durante a produção do filme?

ANGELINA: As memórias. Quando nós gravamos as cenas que mostravam memórias felizes, com a família completa, que tendem a trazer mais emoções à tona e que mais dão saudades, pois mostravam as coisas que mais amamos, as lembranças felizes.

LOUNG: E eu lembro que quando eu estava nos sets, eu tive uma sensação quando eu olhei ao me redor e percebi que todo mundo no set – cada um dos cambojanos – foi afetado pelo genocídio. Aquilo me deixou muito triste, saber que todo mundo, incluindo eu, tinha passado por um trauma coletivo. No entanto, também foi um momento um pouco alegre, redentor e de cura porque eu soube que não estava sozinha.

Como este filme ajudará o Camboja a se tornar forte novamente?

ANGELINA: Eu espero que as pessoas que tenham assistido esse filme e que sejam cambojanas saibam que esta foi a razão pela qual este filme foi feito: mostrar meu amor, minha dedicação ao seu país, minha crença em tudo o que vocês são. E que eu espero que vocês consigam crescer.

Você pode fazer mais filmes sobre o Camboja, especialmente sobre a história do Império Khmer?

LOUNG: Eu estou escrevendo um romance e é para os cambojanos. É sobre mitologia, sobre a mitologia de Ahp, que é uma rainha Khmer, bruxa, vampira sem cabeça. É, realmente, um apocalipse zumbi ao estilo “The Walking Dead” misturado com a mitologia budista.

ANGELINA: Eu amo o jeito que você descreve isso. Eu estou lendo a história e é bem, bem legal.

Como a produção do filme afetou Maddox?

ANGELINA: Maddox voltou para o Camboja. Nós viajamos para lá frequentemente. Ele conhece Loung desde sempre e ele conhece a história dela. E nós conversamos sobre como seria importante para ele trabalhar nisso, porque ele teria que finalmente… não apenas estar em seu país, mas teria que fazer muitas pesquisas profundas sobre isso, e eu acho que, para mim, o maior momento foi quando estávamos nos sets e eu vi ele junto com a equipe, conversando com todo mundo e aprendendo com todo mundo e se sentindo em família.

Loung, quais pensamentos você teve no sentido de querer continuar e não desistir?

LOUNG: Quando eu era criança, existiram momentos nos quais eu pensei em desistir. Eu pensei que apenas seria melhor se eu fosse dormir e não acordasse. Mas então eu pensei nos meus pais e pensei no que minha mãe fez ao se sacrificar, no que ela fez para que nós sobrevivêssemos e pensei no que meu pai fez e pensei em tudo o que eles fizeram durante o genocídio para que nós conseguíssemos sobreviver. Eu não podia desonrá-los. Eu não podia desonrar suas vidas. Eu não podia desonrar seus trabalhos. Eu não podia desonrar seus espíritos se eu desistisse e não acordasse mais. Felizmente, como adulta e tendo, você sabe, vivido mais alguns anos até o momento, eu sou muito grata. Eu tenho muitas razões para continuar. Eu tenho grandes amigos, eu tenho um marido maravilhoso. A vida é preciosa e nós temos apenas esta, então agora eu continuo porque é divertido e é prazeroso e estou, realmente, tendo um bom momento.

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22.set
Angelina Jolie: Eu amo The Walking Dead

Nesta sexta-feira, dia 22 de Setembro de 2017, o site Radio Times disponibilizou uma breve entrevista com a cineasta Angelina Jolie. Nela, a atriz afirma ser fã da série “The Walking Dead”. Confira a tradução da materia feita na íntegra pelo Angelina Jolie Brasil.

Por Adam Tanswell

Você é uma celebridade de Hollywood que possui 6 filhos com idades entre 9 e 16 anos. Como é assistir televisão em casa?
Nós acabamos de mudar para uma casa nova onde todas as televisões são conectadas – eu não sei por que, mas elas são. Eu ligo no noticiário e então, de repente, o canal muda para a Disney Channel. Por este motivo, a chance de eu assistir televisão em casa acabou para mim. As crianças a controlam.

Quem normalmente fica com o controle remoto em sua casa?
Normalmente é a Vivienne. Nunca sou eu.

Você consegue assistir seus programas favoritos?
Se eu quero assistir alguma coisa, eu tenho que assistir no meu computador quando as crianças estão dormindo. Ao contrário, é muito difícil.

As crianças estão dormindo. O que você gosta de assistir?
Eu gosto de assistir notícias na CNN e na BBC. Eu também amo “The Walking Dead”. Eu, realmente, mal posso esperar pela próxima temporada.

A hora da janta deve ser bem agitada com seis filhos…
Eu não sou a melhor cozinheira. Eu faço aulas de culinária e tenho tentado cozinhar mais, porque as crianças ficam juntas quando eu faço isso. Elas adoram, mas noralmente elas assumem o controle. Eu sou muito impaciente e um pouco errática, mas estou aprendendo.

Você tem uma especialidade?
Não. Minha melhor receita acontece quando eu, acidentalmente coloco alguma coisa junto e no fim acaba ficando bom. Eu fico muito entusiasmada quando isso acontece. Particularmente, eu não consigo seguir uma receita. Eu sou esse tipo de pessoa. Eu não gosto de seguir regras.

As crianças ajudam em casa?
As crianças são incríveis. É muito emocionante ver como elas se ajudam. Os irmãos mais velhos ajudam os caçulas e todos elas me ajudam. Elas estão crescendo.

Seu filho mais velho, Maddox, é produtor executivo do novo filme que você dirige, First They Killed My Father. Como isso aconteceu?
Eu conheci Maddox no Camboja quando ele tinha apenas 3 meses de idade e eu sempre quis que ele contasse a história de seu país. Eu disse a ele: “Filho, um dia você vai estar pronto. Você irá dizer para mim quando estiver na hora de se aprofundar em seu país. Mas eu vou precisar de sua ajuda. Você vai ter que trabalhar e vai ter que estar comigo todos os dias.” E um dia ele disse: “Estou pronto”.

Como Madddox se envolveu com o filme?
Ele tem 16 anos agora e desde pequeno ele conhece Loung Ung, que sobreviveu ao regime do Khmer Vermelho e cuja história o filme se baseou. Ele mergulhou nas pesquisas e na parte de edição. Ele foi ótimo. E como o filme é contado a partir dos olhos de uma criança, foi realmente útil ter ele ao meu lado para dizer coisas como “Você está fazendo com que eu perca a atenção nesta cena”. Como diretora, você tem que ter o controle das coisas.

Isso significa que você é uma pessoa mandona?
Quando você tem seis filhos, você não manda em nada!

Fonte: Radio Times



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