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Alice Winocour fala sobre “Couture” em entrevista

5 de setembro de 2025

Nesta sexta-feira, dia 05 de Setembro de 2025, o website Women’s Wear Daily compartilhou uma entrevista exclusiva com Alice Winocour, a diretora de “Couture” – o mais novo filme estrelado por nossa musa, Angelina Jolie. Confira a matéria completa abaixo, traduzida na íntegra pelo Angelina Jolie Brasil!

Por Joelle Diderich

Enquanto o mundo da moda se prepara para uma série de estreias de estilistas nesta temporada, as vozes das mulheres ainda lutam para serem ouvidas.

A diretora Alice Winocour pretende corrigir esse desequilíbrio com seu filme “Couture”, que estreia domingo (7) no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Estrelado por Angelina Jolie e ambientado durante a Semana de Moda de Paris, o filme destaca três mulheres que trabalham nas sombras da indústria da moda: uma cineasta independente, uma modelo e uma maquiadora.

Jolie, alternando perfeitamente entre inglês e francês, interpreta Maxine Walker, uma diretora de filmes de terror de baixo orçamento que é contratada para filmar um curta-metragem para uma marca de moda francesa, mas descobre que tem câncer de mama durante a viagem. O filme explora como as histórias das personagens se cruzam enquanto cada uma delas busca superar desafios.

“Contar histórias de perspectivas femininas que não foram compartilhadas antes é algo que considero muito importante — especialmente agora, quando os direitos das mulheres parecem estar desaparecendo em todos os lugares”, disse Winocour.

Ela passou dois anos se aprofundando na indústria, conversando com várias pessoas, desde profissionais de beleza até agenciadores de modelos. “Em cada projeto, gosto de mergulhar em um mundo que é novo para mim e abordá-lo quase como um documentário”, disse ela, comparando-o ao tempo que passou ao lado de astronautas na Cidade das Estrelas, na Rússia, para o filme “Proxima”. [A “Cidade das Estrelas”, localizada a nordeste de Moscovo, na Rússia, é um centro de treino de cosmonautas altamente restrito e uma área de acesso especial para o programa espacial russo.]

Desta vez, o cenário era um pouco mais glamouroso: A marca Chanel fez uma parceria com Winocour durante a fase de roteiro, fornecendo acesso aos bastidores de seus desfiles e permitindo que ela filmasse cenas importantes em seus salões e oficinas de alta costura em Paris, além de fornecer as roupas para uma cena crucial de um desfile de moda.

A Chanel destacou que foi a primeira vez que um longa-metragem de ficção foi filmado em seus ateliês. “A maison Chanel tem orgulho de apoiar a produção de “Couture”, de Alice Winocour, um filme que revela tanto os bastidores do mundo da moda quanto a energia daqueles que o fazem acontecer, cuja exploração da feminilidade e emancipação ecoam os valores da marca”, disse.

Apesar do tema brilhante, Winocour evita clichês, buscando momentos tranquilos que dão ressonância emocional à história. A atuação de Jolie, que está em sintonia com sua experiência como cineasta e seus problemas pessoais de saúde, é particularmente comovente.

O WWD conversou com Winocour na sede da Chanel em meados de Janeiro, enquanto ela filmava uma cena em que Anyier Anei – que interpreta a modelo sul-sudanesa Ada – está provando roupas para sua primeira aparição nas passarelas de Paris. Anei, fazendo sua estreia no cinema, lidera um elenco de modelos na vida real que também inclui Mona Tougaard e Yuliia Ratner. Adicionando uma dose extra de realismo à cena, Madame Olivia, chefe de um workshop da Chanel, aparece ao lado da atriz francesa Garance Marillier, que interpreta uma jovem costureira.

Uma voz para quem não tem voz

“A ideia era mergulhar em um mundo que eu realmente não conhecia e observá-lo dos bastidores, já que as pessoas geralmente só o veem pela superfície”, disse Winocour durante um intervalo entre as gravações. “Eu queria dar voz às mulheres que não têm voz, que são apenas corpos.”

O trabalho de preparação para essa obsessiva diretora confessa, incluiu passar um tempo com agentes de modelos da Elite, além de assistir a uma infinidade de filmes e documentários focados em moda.

“Percebi que, muitas vezes, o foco estava nos designers — que geralmente são homens — então você acabava olhando as coisas a partir da perspectiva dos poderosos”, disse ela. “Eu gosto de contar histórias que mostram a perspectiva dos fracos.”

A figurinista Pascaline Chavanne disse que, apesar do tema, a moda não teve um papel importante em suas escolhas de figurino. Em vez disso, ela e o designer de produção, Florian Sanson, trabalharam em paralelos visuais, como as fitas vermelhas presas em um manequim de costureira que ecoam as linhas desenhadas no corpo de Maxine durante um exame médico.

Chavanne observou que o título francês do filme é “Coutures” com um “s” no final, que se traduz literalmente como “Stitches” (pontos) em inglês. “A palavra ‘stitches’ (pontos) é importante porque há uma conexão com o corpo e com o fio que é tecido entre essas três histórias”, disse ela.

Ao contrário de seus trajes de época meticulosamente recriados para a série da Hulu lançada no ano passado, “Becoming Karl Lagerfeld”, Chavanne optou intencionalmente por looks atemporais.

“Colocar a moda em primeiro plano em um filme é arriscado porque, em 10 anos, o longa pode parecer totalmente datado”, explicou ela. “No final das contas, é muito complicado encontrar o equilíbrio certo entre se conectar com o público de hoje e garantir que não pareça algo ultrapassado.”

Para a personagem de Maxine, ela se inspirou no estilo de Winocour, assim como nas roupas que Jolie usa quando trabalha como diretora. Os looks resultantes refletem a propensão da estrela por peças monocromáticas e minimalistas, embora certos itens — como um casaco de couro preto — carreguem outro subtexto.

“Era sobre a ideia de pele”, disse Chavanne. “Cada peça de roupa que escolhemos carrega um significado, mas também é um realismo puro e simples, extraído de como víamos o ambiente.”

Ela evitou vestir os personagens com roupas da Chanel. Fundamentalmente, o nome e o logotipo da marca nunca aparecem na tela — embora a escadaria espelhada de seu salão de alta-costura em Paris seja instantaneamente reconhecível.

“Queríamos a autenticidade de uma grande casa de alta costura e não queríamos falsificá-la, então a marca concordou em nos deixar filmar em suas instalações reais — mas sem usar o nome da marca”, disse Winocour. “Eu tinha muita liberdade criativa e, como começamos a trabalhar juntos desde cedo, havia um verdadeiro senso de confiança entre nós.”

Respeitando a Independência

Para a sequência climática do desfile de moda, que acontece ao ar livre após o anoitecer, Winocour e Chavanne selecionaram cerca de 10 looks dos arquivos da Chanel. Algumas eram cópias fiéis, enquanto outras foram reproduzidas em cores ou tecidos diferentes para dar uma unidade visual à cena, que foi projetada para espelhar a estética assustadora de conto de fadas do filme de moda dentro do filme.

Os vestidos, em tons suaves que vão do rosa claro ao cinza pérola, creme e preto, contrastam camadas de tule e organza vaporosas com saias longas de babados e capas de gola em cetim ou tafetá com bordas de renda. Os acessórios exclusivos da Chanel incluem cintos com joias douradas, laços de cabelo gráficos e camélias.

“A Chanel ama tanto o cinema que estava realmente antenada a respeito do lado técnico do figurino. Por exemplo, era muito importante usar tecidos fluidos para essa cena, já que começa a chover durante o desfile — as roupas ficam encharcadas, e o importante é como elas se movem com o vento e a água”, disse Chavanne.

“Nossa expertise é totalmente diferente e é a mistura desses mundos que faz com que funcione. Se fosse apenas sobre colocação de produtos, seria uma via de mão única e isso seria chato. O ótimo sobre como trabalhamos com a Chanel é que foi uma conversa genuína”, acrescentou ela.

A marca forneceu todos os produtos de beleza para a sessão de fotos e seus maquiadores também aparecem na tela. Ella Rumpf, que interpreta Angèle, uma maquiadora que sonha em se tornar escritora, foi treinada pela própria maquiadora da Chanel, Elsa Durrens.

Nos últimos anos, a Chanel expandiu seu apoio ao cinema, que agora abrange tudo, desde figurinos até restauração de filmes, além de iniciativas voltadas para promover a próxima geração de diretores de cinema. No Festival de Cinema de Cannes deste ano, a marca esteve envolvida em quatro projetos, que vão desde “Nouvelle Vague”, de Richard Linklater, até um longa-metragem de animação.

“Couture” é sua mais recente colaboração com o produtor francês Charles Gillibert, que contatou a casa inicialmente ao fazer “Clouds of Sils Maria” em 2014, preparando o cenário para a primeira incursão da Chanel na produção. Desde então, eles trabalharam juntos em filmes como “Personal Shopper”, “Annette” e “Mustang”. Ele conta com a casa para apoiar cineastas independentes que às vezes têm dificuldade para encontrar financiamento em um cenário cada vez mais dominado por plataformas de streaming como a Netflix, à medida que a frequência aos cinemas diminui.

“Quando você trabalha com um auteur, você precisa de uma casa de moda que realmente respeite essa visão em apoio ao projeto, e isso não é fácil de conseguir. É por isso que tenho uma relação tão próxima com a Chanel: sinto que a marca realmente respeita o trabalho dos artistas”, disse ele.

Winocour espera que o filme dê ao público um vislumbre dos trabalhadores paralelos cujo trabalho duro e sacrifícios impulsionam a indústria do luxo. “Para mim, tinha que ser algo completamente diferente de um comercial”, disse ela.

“Couture” estreia este domingo no Festival Internacional de Cinema de Toronto, porém ainda não tem data de lançamento prevista no Brasil.

• Fonte: WWD