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12.out
Da Namíbia, Angelina Jolie escreve uma carta para você

Conforme a Harper’s Bazaar comemora seu 150º aniversário, Jolie compartilha seus pensamentos sobre os direitos das mulheres e sobre as nossas responsabilidades em relação ao meio ambiente.

A atriz e cineasta Angelina Jolie é conhecida por usar sua voz para defender as causas dos direitos humanos ao redor do mundo. Seu projeto mais recente, “The Breadwinner”, conta a história de uma garota afegã de 11 anos chamada Parvana que passa a se vestir de menino para conseguir sustentar sua família, que é controlada pelo Talibã no Afeganistão, onde as mulheres não podiam trabalhar ou frequentar a escola. Ao celebrar o 150º aniversário da Harper’s Bazaar, Jolie compartilha seus pensamentos sobre os direitos das mulheres e sobre a nossa responsabilidade uns com os outros e com o nosso meio ambiente.

Por Angelina Jolie

Quando fui convidada a escrever para esta edição especial de aniversário da Bazaar, eu imaginei uma leitora da revista, 150 anos atrás, em 1867. Se ela pudesse nos ver hoje – nós, mulheres atuais – o que ela pensaria?

A Bazaar foi primeiramente publicada na América dois anos após o fim da Guerra Civil e a abolição da escravatura. Era um mundo sem carros, sem antibióticos modernos ou energia elétrica. A maioria das pessoas não passavam dos 50 anos e ainda era comum as mulheres falecerem ao darem a luz.

Para uma mulher, muito comumente em países ocidentais no século 19, você não poderia ir para a universidade e ter profissões especializadas como medicina, ciência e direito, já que não eram abertas. Você não podia votar e ainda ficaria sem ganhar esse direito, em muitos países, por quase metade de um século.

Então eu imagino que se uma leitora da Bazaar pudesse nos ver agora, ela ficaria perplexa. E já que ela provavelmente defendeu os direitos das mulheres em toda sua vida, imagino que ela ficaria grata.

Mas também me pergunto o que essa mulher do século 19 pensaria sobre a desigualdade que ainda existe para milhares de mulheres e meninas ao redor do globo – como as que têm que ir trabalhar ao invés de estudar para ajudar suas famílias, como Parvana em “The Breadwinner”. Ou as mulheres que ainda morrem jovens por possuírem tão pouco ou nenhum acesso aos sistemas de saúde. Pensaria ela que fez tudo que pode por elas?

A mulher mais bonita e mais resiliente que eu já conheci foi uma refugiada afegã em um campo abandonado na fronteira com o Paquistão. Ela estava grávida e seu marido havia viajado para procurar um trabalho para ajudá-la. Haviam tratores espalhando lama o redor dela e ela esperava por ele, pois não havia outra maneira de se encontrarem. Ela não tinha nem um teto e não havia nenhum hospital por perto. Ela me convidou para entrar e me ofereceu um chá.

Ela perguntou sobre a minha família e sobre meu país. Quando eu ofereci ajuda, de qualquer forma que fosse, ela disse que não podia pedir por mais do que uma visita e uma conversa. Ela era generosa e digna, com os olhos brilhantes. Às vezes quando eu tenho um dia difícil, eu lembro de seu sorriso e do jeito que ela segurava seu próprio corpo, como se ela fosse dar toda a sua restante força para seu bebê. Duas semanas depois que nós nos conhecemos, aconteceu o 11 de Setembro. Com tudo que aconteceu no Afeganistão, eu não imagino se ela conseguiu sobreviver. Seu marido conseguiu voltar antes que destruíssem seu acampamento? Ela deu o parto lá, ou foi forçada a sair? Estará ela, agora, em uma tenda em alguma fronteira com sua criança, que agora deve ser adolescente?

Eu recentemente li que o Fórum Econômico Mundial previu que levará 83 anos para que as lacunas nos direitos e oportunidades entre homens e mulheres, possam acabar. Isso não se trata de progresso para mulheres à custa dos homens, mas sim de encontrar um equilíbrio igual que beneficie todos. Oitenta e três anos parece mais tempo do que qualquer pessoa, homem ou mulher, esperaria ou imaginaria.

Minha mãe, que era mestiça de índios iroqueses pelo lado de seu pai, me ensinou que os iroqueses diziam que devemos considerar o impacto de nossas decisões para até as sete gerações posteriores. É difícil para nós sermos pensativos assim, com toda a pressão em nossas vidas, mas parece, para mim, ser uma bela aspiração.

Então seja lá quem você for e que estiver lendo isso – uma médica, advogada, cientista, ativista dos direitos humanos, estudante, professora, mãe, esposa, ou um menino ou uma menina folheando a revista da sua mãe – eu espero que você se junte à mim ao dedicarmos um momento, hoje, para pensar em como podemos contribuir para um futuro melhor. Existem muitas coisas que não podemos prever sobre o mundo daqui 150 anos. Mas o que nós sabemos é que nossos bisnetos estarão vivendo com as consequências das decisões que fazemos agora, assim como podemos traçar a origem dos problemas que estamos enfrentando hoje, nas raízes dos séculos anteriores.

Foi no início do século 19, por exemplo, que a onda de marfim e a venda outros produtos feitos de animais selvagens alavancavam em alguns países, juntamente com a destruição do meio ambiente. Onde milhões de elefantes, leões e outras espécies viviam no continente africano, hoje, pequenas e dispersas populações se apegam à caça e à expansão das terras agrícolas, reduzindo seu habitat natural.

As fotos e este artigo foram feitos na reserva natural da Namíbia, no deserto Namib. A reserva é preservada pela Fundação N/a’an ku sê, comandada pelos meus amigos Marlice e Rudie van Vuuren. Nossa filha Shiloh nasceu na Namíbia, e nossa família tem trabalhado ao lado de Rudie e Marlice na área da conservação deste país ao longo da última década. Para mim, a Namíbia representa não apenas laços familiares e de amizade, mas também o esforço de se encontrar um equilíbrio entre os humanos e o meio ambiente, algo que é tão crucial para o nosso futuro.

A fundação N/a’an ku trabalha com a população da Namibia’s San, considerada a cultura mais antiga do mundo. Eles representam centenas de anos da vida humana e selvagem coexistindo em harmonia, mas eles sofreram, assim como outros povos indígenas, ao serem forçados a deixar suas terras em razão do cultivo, do desenvolvimento não controlado e do esgotamento da vida selvagem. A destruição do habitat natural e da vida selvagem deste local deixou o povo de San incapaz de caçar e de sustentar suas famílias.

A mesma coisa está acontecendo ao redor do mundo – na África, na América Latina, Asia e no Pacífico – e as mulheres normalmente são as mais afetadas. As mulheres constituem a maioria dos pobres no mundo. Frequentemente recai a elas a responsabilidade de encontrar comida, água e óleo para cozinhar para suas famílias. Quando o meio ambiente está danificado – por exemplo, quando os estoques de pesca estão destruídos, a vida selvagem é morta por caçadores furtivos ou quando as florestas tropicais são desmatadas – isso agrava ainda mais a situação de pobreza. A educação e a saúde das mulheres são as primeiras coisas atingidas. O ambiente também é um fator crucial na futura estabilidade global. A cada ano, 21.5 milhões de pessoas se deslocam em todo o mundo em virtude das mudanças climáticas, de um total de 65 milhões de pessoas que se encontram atualmente desabrigadas.

A Fundação N/a’an ku trabalha para preservar o habitat natural e para proteger as especies ameaçadas de extinção, como elefantes, rinocerontes e guepardos, como os retratados nas fotos deste artigo. Eu os conheci pela primeira vez em 2015, quando ainda eram pequenos filhotes e que foram “adotados” pela nossa família. Eles ficaram órfãos e quase morreram. Eles foram alimentados e recuperaram a saúde, porém, não podem ser devolvidos à vida selvagem pois perderam o medo de seres humanos e podem ser mortos por eles caso se afastem da reserva. Como só existem em torno de 7.100 guepardos em todo mundo, a missão é salvar todo animal possível.

Esses guepardos não são animais de estimação e nenhum animal selvagem deve ser mantido como um. Eles nos inspiram a querer preservar estas únicas e majestosas criaturas na natureza, como um dos vários passos que devemos dar para preservar o meio ambiente para as futuras gerações.

Cada um de nós tem o poder de fazer um impacto através das nossas escolhas diárias. Por exemplo, podemos nos comprometer em nunca comprar produtos ilegais da vida selvagem, como marfim ou chifres de rinoceronte.

A moda já foi um fator importante na hora de incentivar a compra de roupas, jóias e acessórios feitos com partes de animais selvagens. Mas as revistas, agora, podem enviar uma mensagem diferente: que os animais pertencem à natureza e que o marfim não é algo belo, a não ser que esteja na presa de um animal vivo.

O que fazemos, em nossas pequenas maneiras, é importante. O pensamento esperançoso é este que se encontra em nossas mãos. Ao longo dos próximos 150 anos, a tecnologia nos dará mais e cada vez melhores meios de se comunicar, de combater a pobreza, de defender os direitos humanos e de cuidar do meio ambiente. Mas é aquilo o que escolhemos fazer com a liberdade que possuímos, que faz toda a diferença. Se a minha experiencia de vida me ensinou uma coisa é que, o que você defende e o que você escolhe ir contra, é o que define você. Como as pessoas de San dizem: “Você nunca está perdido se você consegue ver seu caminho para o horizonte”.

DIREITOS DAS MULHERES

O Direito Internacional exige mulheres e meninas sejam iguais aos homens e aos meninos. Isso significa igualdade total em:

• O direito de participar na política internacional, nacional e local e na sociedade.
• O direito à educação, ao trabalho e ao acesso à economia.
• O direito à saúde, incluindo a saúde sexual e reprodutiva.
• O direito à vida e de não ser vítima de violência, especialmente de violência doméstica.
• O direito à igualdade em suas relações familiares, em suas comunidades e religiões

O dever legal de garantir igualdade de gênero é obrigatório para todos os países do mundo.

Fonte: London School Of Economics Center for Women Peace and Security

INFORMAÇÕES SOBRE OS GUEPARDOS

• A população atual de guepardos é inferior a 7.100
• Os guepardos estão desaparecendo das áreas, que diminuiu em 89% nos últimos 100 anos.
• Os guepardos são capturados e vendidos ilegalmente para o comércio de animais de estimação e também são caçados em virtude de suas peles.
• O destino principal dos guepardos vivos, no comércio ilegal de animais selvagens, é o Estado do Golfo.
• Estima-se que dois terços dos filhotes de guepardos traficados morrem em virtude do comércio ilegal.

Fonte: Harper’s Bazaar

Fotos:

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06.fev
Angelina Jolie entrevista fotógrafo da UNHCR, Giles Duley

Por Angelina Jolie.

Eu conheci Giles Duley no dia em que ele me apresentou para Khouloud, uma refugiada síria e mãe que se encontrava paralisada, do pescoço para baixo, depois de ser atingida por um tiro de sniper, e que vivia em uma pequena tenda em um campo de refugiados no Líbano, ao lado do seu amado marido e de seus devotos filhos. Eu sei que qualquer um que a conhecesse mudaria, completamente, o modo como vê e o que sente a respeito do povo sírio e dos refugiados. Poucas pessoas terão a oportunidade de conhecê-la pessoalmente, mas a fotografia de Giles apresentou Khouloud ao mundo.

Fotógrafos diferentes podem usar a mesma câmera, a mesma luz, ou fotografar a mesma coisa. Mas o que torna uma fotografia diferente da outra é a alma da pessoa que está atrás da câmera; os momentos que ela reconhece e é atraída – e a conexão emocional que faz. É isso o que eu amo nas fotografias de Giles. Olhando suas imagens, podemos sentir o que ele sente. Fica claro que ele se conecta profundamente com a condição humana das pessoas ao redor do mundo. Ele mesmo passou por uma provação. As pessoas dizem que a diversidade ajuda a aumentar a compaixão e a arte de Giles certamente parece expressar isso.

Uma mulher afegã, com seu bebê, sentada em choque na praia, momentos depois que seu barco desembarcou. Lesvos, Grécia. 28 de outubro de 2015. Giles Duley.

ANGELINA JOLIE: Você se descreve como um “contador de histórias” – o que está por trás da natureza e do poder das histórias que inspiram você?

GILES DULEY: As histórias tem um poder incrível. Eu, realmente, não entendo, mas elas tem um mojo, uma magia que nos ajuda a compreender o mundo e os outros. Desde o nascimento da humanidade, nós temos contado histórias uns aos outros. Nas fogueiras, através das pinturas rupestres, livros e filmes; contar histórias é fundamental para a nossa cultura e para a nossa existência. Eu sigo essa tradição. Eu não sou um jornalista – eu não foco em fatos e figuras. Eu estou interessado na nossa humanidade compartilhada, na nossa empatia pelos outros e nos detalhes da vida que nos ajudam a nos conectar.

ANGELINA JOLIE: Você conta histórias para mudar as percepções e as emoções das pessoas, mas você encontrou histórias que mudaram você também?

GILES DULEY: Minha história vive nas histórias dos outros. Este trabalho é minha vida, então, é claro que isso me afeta profundamente. Muitas das pessoas, cujas vidas eu documento, eu já conheço há anos. Elas são minhas amigas e, às vezes, eu luto para conseguir dormir sabendo onde elas estão e sentindo que não tenho feito o bastante. Mas este trabalho também me dá muita vida; as experiências e as amizades me proporcionaram risadas e lágrimas, e eu recebi muito mais do que dei.

AJ: Depois de um ano cobrindo a crise de refugiados, da Europa ao Oriente Médio, você aprendeu alguma coisa que não estava esperando?

GD: Eu fiz a cobertura dos efeitos gerados pelos conflitos nos civis, ao redor do mundo, durante uma década. O que eu não esperava era fazer a cobertura dessas histórias na Europa. Talvez seja uma coisa óbvia de se dizer, mas estar em Lesvos, conhecer afegãos, sírios e iraquianos que fugiam das guerras era algo que eu já estava acostumado, mas ao ver essas pessoas chegando às margens da Europa, percebi o quão pequeno e interconectado nosso mundo realmente é. O que mais me chocou foi a resposta da Europa dada para a crise, ou melhor, a falta dela. Foi vergonhoso.

AJ: Sua fotografia tem uma força emocional crua. Você mostra as pessoas como elas são e não como elas são rotuladas pelo mundo. Seus alvos não são as “vítimas” ou os “refugiados”, mas as pessoas, assim como nós. Por que é tão importante para você mostrar a humanidade das famílias afetadas pelos conflitos?

GD: Nunca foi algo que eu realmente considerei fazer, ou algo que eu tenha pensado sobre. Isso veio naturalmente pela maneira que eu trabalho. Eu vejo todas as pessoas da mesma forma, não me importo com status, religião ou país. Eu vejo uma humanidade compartilhada. Onde quer que eu vá, as esperanças e os sonhos das pessoas são os mesmos; ver suas famílias protegidas, seus filhos educados, seus entes queridos tratados quando estiverem doentes. De certa forma, minha câmera é completamente democrática – não julga e nem rotula ninguém, vê todas as pessoas de forma igual.

AJ: Como sua própria experiência de adversidade afetou sua criatividade?

GD: Meu acidente mudou tudo. Depois de ficar um ano no hospital, me disseram que, provavelmente, eu jamais poderia trabalhar novamente ou viver de forma independente; ninguém acreditava que eu seria capaz de voltar a trabalhar de novo. Mas eu tomei uma decisão. Eu decidi que eu nunca me concentraria nas coisas que eu não poderia fazer. Em vez disso, eu me concentraria nas coisas que eu podia fazer, transcendendo a isso. Então, é claro, que eu sou severamente limitado como fotógrafo por conta dos meus ferimentos. Eu não posso me mover rapidamente, me ajoelhar ou subir em alguma coisa pra conseguir uma visão melhor. Eu fico cansado e vivo com dor, mas eu me concentro no fato de que, apesar de tudo isso, eu ainda consigo tirar fotos e fazer o trabalho que eu amo. E, por conta dos meus ferimentos, minha empatia e a conexão com as pessoas aumentou – e isso compensa o mal. Eu posso, honestamente, dizer que desde o meu acidente, eu fiquei mais forte, mais focado e me tornei um homem e um fotógrafo melhor.

AJ: Eu sei que muitas vezes, você volta para visitar as famílias que você fotografou. O fato das coisas mudarem tão pouco, já que eles continuam instalados em campos de refugiados, ou em acampamentos informais, com uma quantidade cada vez menor de comida e de dinheiro, alguma vez, já balançou sua fé em seu propósito? O que faz com que você continue vivendo nesses momentos mais sombrios?

GD: Se você acredita em uma história, você tem que continuar contando-a. Eventualmente, alguém vai ouvir. Muitas vezes, nós da mídia somos culpados por sempre passarmos para a próxima história. Se as coisas não mudaram para uma família, ou para uma comunidade, eu acho que é meu trabalho continuar mostrando. Mas é claro que você fica pra baixo. Voltar e ver alguém vivendo nas mesmas terríveis condições, faz com que eu sinta como se tivesse falhado. A história de Khouloud foi exatamente assim. Quando eu a visitei pela primeira vez em 2014, ela estava muito vulnerável e precisando de ajuda. Então, quando eu descobri que ela ainda estava vivendo na mesma tenda improvisada de dois anos atrás, eu senti uma pontada no estomago. Eu pensei “Qual é o objetivo de contar histórias se isso não muda vidas?” E então, eu fui visitar Khouloud e sua família e eu me acabei em lágrimas quando a vi. Durante dois anos, ela não tinha saído da cama, que fica em um minúsculo quarto sem janelas. Era como se fosse uma tortura e ela ainda estava sorrindo. As primeiras palavras que eu disse a ela foram: “Eu falhei com você”.

A Cruz Vermelha Grega tratava um refugiado afegão que estava sofrendo de hipotermia. O barco tinha afundado parcialmente, deixando os sobreviventes na água por quase seis horas. Lesvos, Grécia. 29 de outubro de 2015. Giles Duley.

Um pai carrega seus dois filhos do barco após o desembarque. Lesvos, Grécia. 26 de outubro de 2015. Giles Duley.

Zahra, 54, de Abou Dhour, perto de Idlib. Giles Duley.

Ibrahim, 25, de Idlib. Giles Duley.

Hussein, 8, de Aleppo. Giles Duley.

Halima, 60, de Idlib. Giles Duley.

Lamis, 5, e Jad, 1, de Homs. Giles Duley.

Murad, 5, de Idlib. Giles Duley

Khaled, 12, e seu irmão Fadi, 7, que é cego, de Homs. Giles Duley.

Depois de certo tempo, eu pensei nas minhas próprias palavras: “Se você acredita em uma história, você tem que continuar contando-a”. Então, foi o que eu fiz. Eu tentei documentar todos os momentos da história daquela família, para fazer melhor do que tinha feito antes. Alguns meses atrás, uma organização dos Estados Unidos, chamada “Atos Aleatórios” [Random Acts] entrou em contato comigo. Eles tinham visto a história dela e queriam agir. Nós trabalhamos juntos em uma campanha para arrecadar dinheiro e, no final, pessoas de mais de 100 países tinham doado cerca de 250.000 dólares para Khouloud e para outras três famílias que estavam vivendo no Líbano. Este é o poder de uma história. É por isso que eu faço o que eu faço e continuarei contando histórias até que alguém escute. Eu não acho que a fotografia pode mudar o mundo. No entanto, eu acredito que a fotografia tem o poder de inspirar as pessoas que podem.

AJ: Por que você acha que tão pouco mudou? O que nós estamos fazendo de errado? Se você tivesse a capacidade de influenciar a política externa dos Estados Unidos e de outras nações poderosas, o que você mudaria com relação às suas políticas migratórias, sobre as crise dos refugiados?

GD: A crise dos refugiados é um problema global que precisa de uma solução global. A maioria dos políticos tem sido mais reacionária do que visionária em sua abordagem. Enquanto os líderes mundiais não trabalharem juntos e não criarem um plano a longo prazo para combater as raízes dessas causas, a crise continuará. Infelizmente, eu não consigo ver isso acontecendo e, em vez disso, estamos vendo o uso contínuo de uma retórica negativa e temerosa por parte dos políticos. Se eu pudesse fazer alguma coisa? Eu levaria todos os políticos para visitar as famílias que eu documentei. Claro que eu não posso fazer isso, então eu vou continuar a me esforçar para levar as histórias até eles.

AJ: Você falou que tem esperança de que sua fotografia possa inspirar as pessoas a agir, a fazer o que puderem para ajudar a resolver a crise dos refugiados, dando dinheiro para fazer lobby junto aos governos e ajudar suas comunidades. É um dos seus objetivos contrariar o sentimento de impotência que as pessoas possam sentir diante da implacável cobertura negativa sobre os refugiados?

GD: A crise dos refugiados pode ser esmagadora para as pessoas. Diante do enorme número e da escala, as pessoas me dizem, repetidas vezes, “Mas o que eu posso fazer?” E diante da negatividade e do ódio vistos nas redes sociais, na imprensa e nas palavras de ódio pregadas pelos políticos, o senso de desamparo cresce. Mas eu acredito que nós podemos e devemos fazer a diferença. Acredito que nós devemos olhar para trás neste momento, como um ponto de vantagem na história da nossa humanidade; nós escolhemos dar as costas para aqueles que precisam ou escolhemos abrir nossos braços? Isso serve para aqueles que sabem que é certo se levantar, ser considerado e não ser silenciado. Nós podemos apoiar organizações que ajudam refugiados diretamente, arrecadar dinheiro para organizações como a UNHCR/ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados), escrever aos políticos, falar através das redes sociais quando virmos um discurso de ódio. Nós não podemos mudar o mundo sozinhos, mas isso não pode nos parar de fazer o que fazemos. Se todos nós fizermos o que pudermos, então o mundo poderá mudar.

AJ: Recentemente, você descreveu uma mulher na Finlândia, que falava sobre os esforços de sua comunidade em ajudar refugiados sírios, dizendo: “É melhor acender uma vela do que amaldiçoar a escuridão”. Parece que o mesmo pode ser dito sobre a sua fotografia. É uma caracterização justa?

GD: Em 2015, cem refugiados e pessoas que precisavam de abrigo, foram temporariamente alojados na pequena comunidade finlandesa de Nagu. Esta foi uma decisão que não foi muito bem recebida, e a maioria teve dúvidas. Em Nagu, eles formam uma pequena e muito unida comunidade que, durante os meses de inverno, recebe alguns visitantes. Eles tinham se preocupado com os jovens rapazes, com os ataques às mulheres e como os muçulmanos se integrariam aos seus costumes?

Um jovem afegão é cuidado por sua tia, enquanto sua mãe recebe tratamento médico de emergência. Lesvos, Grécia. 28 de outubro de 2015. Giles Duley.

Militares da Antiga República Jugoslava da Macedônia, usam fio de barbear para construir uma cerca de fronteira. Idomeni, Grécia. 29 de novembro de 2015. Giles Duley.

‘Muna’ com suas filhas. Em 2015, um míssil atingiu sua casa, matando dois de seus filhos. Ela também perdeu a perna devido a seus ferimentos. Jordânia. 27 de março de 2016. Giles Duley.

Khouloud com seu marido Jamal. Khouloud, que é de Mo’damiyat al Sham na Síria, foi baleada por um sniper em 2012. Ela ficou tetraplégica, paralisada do pescoço para baixo. Ela vive em um abrigo improvisado no Vale Bekaa com seu marido, Jamal, e seus quatro filhos. Jamal é seu cuidador em tempo integral. Giles Duley.

Aya, que tem espinha bífida, sendo empurrada em sua cadeira de rodas por seu irmão Mohamad. Trípoli, Líbano. 22 de fevereiro de 2016. Giles Duley.

Mas a comunidade tomou uma decisão – eles não tratariam essas famílias, que tinham vindo do Iraque e do Afeganistão, como refugiados. Em vez disso, eles iriam tratá-los como se fossem convidados. A recepção calorosa fez diferença, mas os benefícios não foram sentidos apenas pelos refugiados. Apesar das reservas iniciais, o povo de Nagu sente, agora, que foram os refugiados que lhes trouxeram algo. Uma mulher finlandesa, Mona Hemmer, descreveu a filosofia deles para mim. “É melhor acender uma vela do que amaldiçoar a escuridão”. Eu não sei se essa frase reflete o meu trabalho, mas certamente eu aspiro por isso. Nos lugares mais escuros é onde você descobre a luz. Através do meu trabalho, eu consigo ver o melhor das pessoas, eu consigo testemunhar a força de uma família e ver o amor verdadeiro. São nesses lugares que eu escolho focar meu trabalho porque neles, nós vemos humanidade e esperança. Muitos fotógrafos querem mostrar as diferenças entre nós; eu quero mostrar as semelhanças. Apesar de mostrar a realidade crua, eu espero que minhas fotos também deem esperança.

Legado de Guerra

Uma família afegã chega em Lesvos, Grécia. Outubro de 2015. Giles Duley, Legados da Guerra.

O “Legado de Guerra” é um projeto fotográfico de cinco anos que explora os efeitos, a longo prazo, dos conflitos ao redor do mundo. Mais especificamente, o “Legado de Guerra” documenta o impacto duradouro da guerra nos indivíduos e nas comunidades, através das histórias daqueles que vivem em suas consequências.

Com a mídia dominante firmemente focada nas consequências econômicas e políticas, a curto prazo, dos conflitos, o “Legado da Guerra” está preocupado com aquilo que é humano e pessoal. Ele explora as paisagens locais e a vida cotidiana daqueles que são afetados pelos conflitos – muitas vezes, décadas depois dos tratados de paz terem sido assinados – e levanta questões que muitas vezes são negligenciadas pelas notícias e pela história dominantes. Para obter mais informações visite o website oficial do projeto: legacyofwar.com

Fonte:

Humanity Magazine, Citizens Of Humanity



03.fev
Angelina Jolie critica decreto de Donald Trump

Angelina Jolie falou nesta quinta-feira (2) sobre o decreto do presidente Donald Trump que impede a entrada de cidadãos de sete países de maioria muçulmana nos EUA. A atriz e ativista disse que tal medida atinge refugiados vulneráveis e pode alimentar o extremismo.

Sem mencionar Trump diretamente, Angelina afirmou em um artigo publicado no jornal “The New York Times” que discriminar com base na religião é “brincar com fogo”.

Jolie acrescentou que, como mãe de seis filhos acredita na necessidade de segurança para a nação, mas disse que decisões deveriam ser “baseadas em fatos, não no medo”.

“Quero saber se as crianças refugiadas que se qualificam para receber asilo sempre terão uma chance de postular seu caso a uma América compassiva”, escreveu.

A atriz também indagou se seria possível “cuidar de nossa segurança sem rotular cidadãos de outros países como uma ameaça”, em virtude de geografia ou religião, ao visitar os Estados Unidos.

O decreto de Trump barra por 90 dias a entrada de cidadãos de Síria, Iraque, Irã, Líbia, Somália, Sudão e Iêmen nos EUA. A admissão de refugiados foi suspensa por 120 dias, e os refugiados sírios foram proibidos indefinidamente.

A medida não causou consternação somente nas nações envolvidas, mas em outros países majoritariamente muçulmanos e em aliados como Alemanha e Reino Unido.

As celebridades de Hollywood também têm usado os holofotes para repudiar a ordem do presidente.

Vencedora do Oscar honorário por seu trabalho humanitário, Jolie visitou, em 2016, campos de refugiados no Líbano e na Grécia, onde conheceu famílias que fugiam de guerras no Oriente Médio.

A artista alertou que “ao insinuar que os muçulmanos são menos merecedores de proteção, alimentamos o extremismo no exterior”.

Clique aqui para ler o artigo traduzido na integra pelo Angelina Jolie Brasil.

Fonte:

Folha de S.Paulo



02.fev
The New York Times publica artigo escrito por Angelina Jolie

Recentemente, o novo Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou um decreto proibindo a entrada de refugiados e imigrantes advindos da Síria, Iraque, Irã, Líbia, Sudão, Iêmen e Somália. Por conta desta decisão, o governo norte americano está enfrentando protestos e hostilidade.

Em meio a este cenário político, a Enviada Especial do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados, Angelina Jolie, decidiu se manifestar pela primeira vez a respeito do assunto. Nesta quinta-feira, dia 02 de Fevereiro de 2017, o jornal ‘The New York Times’ publicou em seu site oficial, um artigo escrito por ela, intitulado “A política dos refugiados deveria ser baseada em fatos, não em medo”. Confira na íntegra, o artigo traduzido exclusivamente pelo Angelina Jolie Brasil:

A política dos refugiados deveria ser baseada em fatos, não em medo

Por Angelina Jolie

Os refugiados são homens, mulheres e crianças que foram apanhados pela fúria de uma guerra ou que se encontram no centro de uma perseguição. Longe de serem terroristas, os refugiados são, muitas vezes, vítimas do terrorismo.

Tenho orgulho da história do nosso país em dar abrigo às pessoas mais vulneráveis. Os americanos tem derramado sangue ao defender a ideia de que os direitos humanos transcendem a cultura, geografia, etnia e religião. A decisão de suspender a reinstalação dos refugiados nos Estados Unidos e de negar a entrada de cidadãos de sete países que são, em sua maioria, muçulmanos, foi recebida de forma chocante pelos nossos amigos ao redor do mundo, precisamente por causa dos atuais recordes.

A crise global de refugiados e a ameaça do terrorismo fazem com que seja inteiramente justificável considerarmos as melhores formas para proteger nossas fronteiras. Todo governo deve equilibrar as necessidades dos seus cidadãos com sua responsabilidade internacional. Mas nossa resposta deve ser mensurada, baseada em fatos e não em medo.

Como mãe de seis filhos, todos nascidos em terras estrangeiras e orgulhosos cidadãos americanos, eu também quero muito que nosso país seja seguro para eles e para todos os filhos da nossa nação. Mas eu também gostaria de saber que as crianças refugiadas, que necessitam de asilo, também terão a chance de defender sua situação a uma América compassiva. E que nós podemos gerenciar nossa segurança sem barrar cidadãos de um país inteiro – até bebês – com a justificativa de que não é seguro visitar nosso país em virtude da geografia ou da religião.

Simplesmente não é verdade que nossas fronteiras estão sendo invadidas ou que os refugiados são admitidos nos Estados Unidos sem nenhum rigoroso escrutínio.

Os refugiados são, de fato, são alvos do mais alto nível de perseguição do que qualquer outra pessoa que viaja para os Estados Unidos. Isso inclui meses de entrevistas, de verificações de segurança realizadas pelo FBI, pelo Centro Nacional Contraterrorismo, pelo Departamento de Segurança Interna e pelo Departamento do Estado.

Além disso, apenas as pessoas mais vulneráveis são encaminhadas para reassentamento: sobreviventes de tortura, mulheres e crianças em risco ou que podem não sobreviver sem uma assistência médica especializada. Visitei incontáveis acampamentos e cidades onde centenas de milhares de refugiados mal sobrevivem e onde cada família passou por um sofrimento. Quando a Agência Nacional das Nações Unidas para os Refugiados identifica aqueles que mais precisam de proteção, podemos ter certeza de que eles realmente merecem a segurança, o abrigo e novo começo que países como o nosso podem oferecer.

Keith Negley, The New York Times

E na verdade, apenas uma minuscula fração – menos de um por cento – de todos os refugiados no mundo, são para sempre reassentados nos Estados Unidos ou em qualquer outro país. Existem mais de 65 milhões de refugiados e de pessoas desabrigadas ao redor do mundo. Nove em cada 10 refugiados vivem em países pobres ou de renda média, e não em países ricos do Ocidente. Existem, pelo menos, 2.8 milhões de refugiados sírios apenas na Turquia. Apenas cerca de 18.000 refugiados sírios foram reassentados na América desde 2011.

Essa disparidade aponta para outra, mais preocupante realidade. Se enviarmos a mensagem de que é aceitável fechar as portas para os refugiados, ou que é aceitável descriminá-los com base na religião, nós estaremos brincando com o fogo. Nós estamos acendendo um fusível que irá queimar ao redor dos continentes, incitando a verdadeira instabilidade que estamos procurando proteger, contra nós mesmos.

Nós já estamos vivendo a pior crise de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial. Existem países na África e no Oriente Médio que estão com superlotação de refugiados. Durante gerações, os diplomatas norte americanos se juntaram às Nações Unidas ao estimular países em manter suas fronteiras abertas e em manter os padrões internacionais de tratamento aos refugiados. Muitos fazem isso com uma generosidade exemplar.

Qual será a nossa resposta se outros países usarem a segurança nacional como desculpa para começar a mandar as pessoas embora, ou para negar direitos com base na religião? O que isso pode significar para os rohingya de Myanmar, para os refugiados somalis ou para as outras milhões de pessoas desabrigadas que são muçulmanas? E como isso reage com a proibição absoluta do direito internacional com relação à discriminação baseada na fé ou na religião?

A verdade é que mesmo que os números de refugiados que nós recebemos seja pequeno, e que nós fazemos o mínimo necessário, nós só fazemos para atender as convenções e os padrões das Nações Unidas que tanto lutamos para construir depois da Segunda Guerra Mundial, pelo bem da nossa própria segurança.

Se nós, norte americanos, dissermos que essas obrigações não são mais importantes, corremos o risco de gerar um “vale tudo”, no qual ainda mais refugiados serão negados a um lar, garantindo mais instabilidade, ódio e violência.

Se criarmos um grupo de refugiados de “segunda classe”, insinuando de que os muçulmanos precisam menos de proteção, nós estaremos alimentando o extremismo no exterior e, em casa, estaremos minando o ideal de diversidade que tanto os democratas quanto os republicanos apreciam: “A América está comprometida com o mundo porque muito do mundo está dentro da América,” nas palavras de Ronald Reagan. Se dividirmos as pessoas além das nossas fronteiras, nós estaremos nos dividindo.

A lição dos anos que passamos lutando contra o terrorismo desde o 11 de Setembro, é que cada vez que nós nos afastamos dos nossos valores, pioramos os problemas que estamos tentando conter. Nunca devemos permitir que nossos valores se tornem os danos colaterais na busca de uma segurança melhor. Fechar nossas portas para os refugiados ou criar discriminação entre eles não é nosso caminho e não nos torna mais seguros. Agir pelo medo não é nosso caminho. Segmentar o mais fraco não mostra força.

Todos nós queremos manter nosso país seguro. Portanto, devemos olhar para as forças terroristas – para os conflitos que dão espaço e oxigênio aos grupos como o Estado Islâmico, ao desespero e à anarquia dos quais se alimentam. Nós devemos ter uma causa em comum com as pessoas, de todas as crenças e origens, em lutar contra a mesma ameaça e em procurar a mesma segurança. Para isto, é onde eu esperaria que qualquer presidente da nossa grande nação conduziria, em nome de todos os norte americanos.

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Angelina Jolie é cineasta e é a Enviada Especial do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados.

Fonte:

The New York Times



04.nov
Em meio ao divórcio, Jolie escreve artigo sobre a violência sexual

Nesta quinta-feira, dia 03 de Novembro, foi disponibilizado através do site oficial da Escola de Economia e Ciência Política de Londres (London School of Economics and Political Science – LSE), um artigo escrito pela Enviada Especial do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (UNHCR/ACNUR), Angelina Jolie, e pelo Primeiro-Secretário de Estado Britânico, William Hague, sobre a violência sexual em conflitos.

Os dois são Professores Visitantes da Universidade no novo curso de mestrado sobre mulheres, paz e segurança que busca promover a igualdade entre os sexos e ajudar as mulheres afetadas pelos conflitos ao redor do mundo. De acordo com a instituição, os professores convidados darão conferências, participarão de oficinas e de eventos públicos. As matrículas para o referido curso foram iniciadas no mês de agosto deste ano. Confira, abaixo, o artigo traduzido na íntegra pelo Angelina Jolie Brasil:

A violência sexual relacionada com conflitos é um crime passível de prevenção e deve ser uma prioridade para o novo Secretário Geral da ONU

William Hague e Angelina Jolie pedem por uma ação global concertada para por fim nos conflitos relacionados com a violência sexual e para combater atitudes sociais que estigmatizam sobreviventes e normalizar a violência contra as mulheres.

A lista de problemas que se encontra na bandeja de entrada do novo Secretário Geral das Nações Unidas é uma das mais assustadoras que alguém já recebeu nesta posição. É uma sorte que o novo Secretário seja António Guterres, pois a ONU terá um líder que possui uma inigualável experiência com relação às questões humanitárias e aos refugiados.

Durante o processo de seleção para eleger o novo Secretário, Sr. Guterres foi questionado sobre como o mundo deverá mensurar o sucesso do próximo Secretário Geral da ONU. E ele respondeu: “por sua contribuição em reduzir o sofrimento humano, especialmente, o sofrimento causado pelos conflitos violentos e por atrocidades”.

Nós não poderíamos concordar mais. O objetivo fundamental da ONU, estabelecido na Carta das Nações Unidas em 1945, era o de “preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra”. No entanto, a comunidade internacional está falhando na tentativa de por um fim nas guerras atuais, que estão se prolongando por décadas, assim como também na tentativa de proteger os civis de crimes de guerra persistentes, sob a brilhante atenção da mídia e da conscientização global. Para milhões de pessoas inocentes, o flagelo da guerra é uma realidade diária.

Existem apenas algumas manifestações de sofrimento humano piores que a violência sexual relacionada a conflitos. A cada ano, a ONU compila um relatório detalhando o impacto desses crimes a nível mundial. O relatório deste ano é de horrível leitura e deveria estar na mesa de todo Presidente, Primeiro Ministro, Ministro de Relações Exteriores e Ministro da Defesa ao redor do mundo. Ele descreve mulheres e meninas queimadas vivas depois de estupros em massa praticados na região sul do Sudão, descreve também meninos sendo sexualmente torturados pelas forças governamentais em centros de detenção na Síria.

O relatório ainda descreve as vítimas da região nordeste da Nigéria, Somália e Myanmar, que são obrigadas a casar com seus agressores, como uma forma aceitável de “liquidação” após o estupro. Ele revela a administração forçada e os tratamentos prejudiciais realizados pelo Estado Islâmico (ISIL) a jovens garotas no Iraque e na Síria, com a finalidade de acelerar o ato de masturbação para que possam ser vendidas como escravas sexuais, ou entregues como “recompensas” aos seus combatentes. O relatório confirma 29.000 casos de violência baseada em gênero na República Centro Africana apenas no ano passado – quase metade envolvendo estupro coletivo – levando-se em consideração de que o número real é, provavelmente, muito maior. Para cada estupro relatado em uma situação de conflito, estima-se que entre 10 a 20 casos não sejam registrados.

É um mito que a violência sexual é um subproduto inevitável dos conflitos. Esta é uma violação utilizada como uma tática de guerra, limpeza étnica e terrorismo. É realizada para humilhar, punir, dominar, aterrorizar, dispersar ou relocar civis de forma forçada. É um crime evitável que deve ser confrontado com a mesma determinação que o uso de bombas de fragmentação ou armas químicas. Não é uma questão que deve ser deixada de lado, que deve ser tratada apenas quando outros aspectos dos conflitos forem abordados. É uma parte indispensável na hora de atingir os objetivos das Nações Unidas, de salvaguardar a paz e a segurança internacional, a acabar com a pobreza e com o empoderamento das mulheres.

Nos últimos anos, tem havido progresso. 156 países comprometeram-se em acabar com o uso do estupro como arma de guerra. Planos de Ação Nacionais foram colocados em prática por alguns dos países mais afetados, incluindo a Somália e a República Democrática do Congo. O primeiro Protocolo Internacional, sobre como documentar e investigar crimes de violência sexual tem sido adotado. E durante uma Cúpula Global, que foi co-presidida por nós em Londres, em Junho de 2014, testemunhamos uma onda de esperança e otimismo com relação à possibilidade de um avanço na luta contra a violência sexual nas zonas de guerra, assim como também, testemunhamos novos comprometimentos feitos por diversas nações.

O Sr. Guterres tem um profundo entendimento a respeito do problema. Agora, nós precisamos que os governos nacionais o apoiem, utilizando todos os meios que se encontram à sua disposição, como Secretário Geral da ONU transformando isso em uma prioridade.

Em primeiro lugar, nós acreditamos que a luta contra a violência sexual deve ser exigida ao longo de todo o sistema das Nações Unidas, incluindo os mandatos de todos os mediadores e enviados da ONU. Isso é algo especialmente urgente no caso da Síria e do Iraque. As imagens horríveis de meninas iáziges que são vendidas em gaiolas são uma consequência direta da impunidade quase que total da violência sexual. Haverá um impacto devastador a longo prazo sobre a possibilidade de se conseguir paz sustentável e de estabilidade, se tais crimes forem, novamente, varridos para baixo do tapete.

Em segundo lugar, pedimos para as nações demonstrarem determinação política, clareza moral e unidade, para garantir que os agressores sejam responsabilizados. Isto também inclui acabar com a persistente impunidade da violência sexual, através das Forças da Paz da ONU. Isso significa garantir que as investigações e os procedimentos penais não sejam bloqueados ou impedidos, universalizando o treinamento pré-implementado a todas as Forças da Paz da ONU, incentivando mudanças na doutrina militar nacional para apoiar isso, e ajudando as organizações regionais, como a União Africana, a desenvolver suas capacidades. Recentemente, um importante trabalho tem sido liderado pelo Ministério de Defesa do Reino Unido para ajudar a galvanizar a ONU e as forças nacionais nesta área.

Em terceiro lugar, a obrigação de assegurar que as negociações de paz tenham uma participação significativa de mulheres, deve, finalmente, se tornar realidade. Isso é algo particularmente importante com relação aos conflitos envolvendo uma sistemática violência de gênero, e com relação a desigualdade de funções e de opressão praticadas visando perpetuar as condições de conflitos armados. A Resolução de número 1.325 do Conselho de Segurança da ONU faz 16 anos esta semana. Cumprir com esta obrigação não pode ser algo sempre deixado de lado até a próxima guerra.

Finalmente, esperamos que o Secretário Geral, Guterres, vá defender a necessidade de uma Cúpula Mundial em 2018, para manter os Estados comprometidos com os compromissos assumidos em Londres, em 2014, e inspirar novos progressos.

Nenhum desses passos podem ser realizados apenas pelo Secretário Geral da ONU, ou por apenas um único governo. Nós precisamos de um aumento de esforços e de ações em todo o mundo para quebrar tabus com relação à violência sexual em qualquer ambiente, para reverter a rejeição cruel e injusta com relação aos sobreviventes e para resolver atitudes em todas as sociedades que normalizam a violência contra as mulheres. O Centro Para as Mulheres, Paz e Segurança da LSE tem um papel importante a desempenhar – ajudando a manter os governos prestando contas, reforçando a mão dos praticantes ao redor do mundo, e atuando, ao lado de outros centros acadêmicos, como um laboratório de ideias e de boas práticas.

A ONU não existe para servir os interesses dos Governos mais poderosos do mundo. Ela existe para proteger aqueles que não possuem voz e para defender os direitos dos mais vulneráveis. É difícil pensar em um caso mais convincente para ação do que a situação de milhões de mulheres, de crianças e de homens que vivem sob a sombra e sob os encargos deste crime negligenciado.

Fonte:

London School of Economics and Political Science



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